Renascer.


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Glória Braga Horta

Era um pezinho de crisântemo, plantado em um pequeno vaso de barro e embrulhado em papel celofane. Uma brilhante fita cor-de-rosa o enlaçava, contrastando com seu aspecto sombrio. Largado ali na porta da lixeira, suas flores agora secas e fenecidas não deixavam nenhum resquício de sua cor. Vislumbrei-as amarelas, brancas, azuis… lilases, talvez.

A quem teria pertencido o mirrado vegetal? Àquela vizinha do final do corredor, de expressão eternamente dura e carrancuda? Lembro-me bem dela: certo dia, numa reunião de condomínio, declarou estar com uma afecção no pé e que tal doença lhe fora transmitida por alguma virose que meu cão deixara no elevador! Aquele cubículo vivia sujo e molhado, o que a fazia afirmar ser obra do cãozinho. Este, a propósito, tinha uma preferência varonil por postes e árvores, onde podia levantar confortavelmente sua perninha.

Descobri, por acaso, o culpado desse ato execrável no elevador: um advogado, de cara sempre emburrada, morador do último andar, praticava imundícies ali, com a intenção diabólica de incriminar o animalzinho… Excrementos eram encontrados até embaixo do carpete daquele cubículo! E não é que as pessoas acreditavam mesmo que aquela merda era do meu lindo e educado cãozinho?! Será que não sabiam diferenciar o odor ? Porque, convenhamos, fedor de mijo e de bosta canina não é nada parecido com o de gente!

Mas, voltando a falar daquela senhora do pé virulento: uma vizinha me contou que tal figura havia retornado recentemente de uma viagem a um país longínquo, onde teria contraído a doença… Será que os crisântemos lhe haviam pertencido? E a virose que ela adquirira (quem sabe, por falta de higiene!), ressecaram a plantinha e, por isso, sem dó nem piedade, ela a abandonara à própria sorte?

Mais lírico seria imaginar aquele vegetal como um símbolo de amor presente de um namorado apaixonado, ou, quem sabe, de um conquistador galante, intrépido e romântico… Ah! Flores! Formosas flores, que vieram dos amores.

Nesse meu devaneio, fui transportada ao passado, onde, menina, derramava sobre a imagem da Virgem o amálgama de perfumadas pétalas ingênua veneração nas angelicais coroações de Maria; revi as mocinhas que, apaixonadas, despetalavam ao vento as margaridas, feitas oráculos, em incontida paixão e esperança: bem-me-quer… malmequer… Brotaram-me saudades das mimosas, cheirosas flores da minha infância: boninas, violetas, rosas, cravos lírios e hortênsias; sempre-vivas, maravilhas, amores-perfeitos, dálias; e, finalmente, as damas-da-noite – fantásticas e boêmias flores – perfumando meu jardim.

Mágicas e inesquecíveis noites…

Agora, vendo aquela plantinha ali, taciturna e abandonada, uma certeza repentina me aflorou a mente: vai renascer! Carreguei-a para casa, cortei-lhes os galhos ressequidos e coloquei-a na janela, para que pudesse desfrutar do sol da manhã e do orvalho da noite. Tão definhada estava que difícil era alguém imaginá-la desabrochando novas flores.

Contudo, ante meu olhar embevecido, ela renasceu! Colorida e radiante, até um beija-flor já veio nela pairar para sorver do néctar de suas florzinhas lilases!

Não morre mais…

Fonte: http://www.luizberto.com/coluna/deu-no-jornal

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Sobre presentepravoce

Sou Católico Apostólico Romano e Participo da RCC a 38 anos. Meu objetivo é compartilhar experiências e ensinamentos sobre Família e relacionamento de casais na luz do Batismo no Espírito Santo, O Selo Da Nova e eterna Aliança.
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